Carlos Alberto Mattozo, médico neurocirurgião responsável pela intervenção, explica que o procedimento com o paciente acordado é indicado em pessoas que têm algum problema na região do cérebro relacionada à linguagem.
“Normalmente se acorda o paciente durante o procedimento para se fazer testes neurológicos para verificar se o paciente está justamente desenvolvendo alguma alteração ou lesão neurológica durante o procedimento”, explica.
De acordo com o médico, logo que a equipe informou Maurício que ele precisaria passar por uma cirurgia no cérebro, o produtor musical se mostrou preocupado imediatamente se a habilidade dele em relação à música seria afetada.
“Eu estou muito feliz com os planos futuros. Vou ter condição, sem sequela. Maravilhoso. Deus abençoou as mãos do doutor”, afirma o paciente.
Procedimento
Segundo Mattozo, durante a cirurgia o paciente é inicialmente sedado. A equipe médica faz uma neuronavegação, que mapeia toda a região do cérebro para localizar o ponto exato onde está o tumor.
Com isso, fazem a incisão e, na sequência, a abertura do osso do crânio.
Em seguida, a sedação é reduzida e o paciente começa a retomar a consciência. A partir disso, o paciente fica apto a responder questionamentos do médico durante o procedimento cirúrgico e executar comandos.
Geralmente, quando o procedimento é aplicado, é mais comum que o paciente apenas movimentos dos braços e das pernas e, às vezes, fale com o médico.
No caso de Maurício, nesse momento, ele já cantava e tocava.
Alívio
Sônia de Souza, esposa de Maurício, conta que acompanhou o procedimento do lado de fora do centro cirúrgico.
“A enfermeira veio dar informações e eu disse: ‘Como está o paciente Maurício Stemberg?’. Ai ela disse: ‘Deve estar muito bem, porque ele está tocando e cantando'”, relembra.
A mulher conta que a notícia trouxe um alívio, uma vez que, naturalmente, estava preocupada. Além disso, Sônia reforça o amor do marido pela música.
“Ele é a música, se você olhar para ele você pode ver uma nota musical. Ele só pensa em música. Ele ama ama ama de paixão”, brinca.
Paciente toca violão durante retirada de tumor no cérebro
O paciente conta que o diagnóstico do tumor aconteceu no início de julho, cerca de três semanas antes da cirurgia.
Inicialmente, Maurício passou a ter convulsões e, depois, desmaios.
“Essas duas convulsões eu sentia que ia dar alguma coisa e sentava. Mas a terceira foi bem forte, apagou de um jeito que foi totalmente diferente dos outros”, relembra.
Por Emanuel Pierin, Lina Hamdar e Mariah Colombo, g1 PR e RPC — Curitiba
O neurocirurgião Dr. Carlos Alberto Mattozo participou de uma entrevista ao vivo na TV Evangelizar, conduzida pela apresentadora Carol Termena. Na conversa, foram abordados temas sobre cirurgia de tumores cerebrais e os avanços da neurocirurgia moderna.
13/03/2023 – 02h00 (Atualizado em 29/03/2024 – 04h38)
O adolescente Luiz Antônio Machado, de 17 anos, descobriu um tumor raro no cérebro, do tamanho de uma laranja, após uma especialista perceber que ele fazia movimentos involuntários com a língua.
Esse não era o único sinal de que algo estava errado.
“Minha mãe [Elza Machado] começou a desconfiar quando comecei a roncar estranho à noite, como se eu sentisse falta de ar. E ela também começou a perceber uma falta de equilíbrio em mim”, lembra Luiz.
A situação chegou ao limite quando o garoto quase caiu sozinho a caminho do carro do padrasto.
Como Luiz havia conseguido recentemente um emprego de jovem aprendiz e tinha plano de saúde, ele se consultou com uma otorrinolaringologista conhecida da cidade onde vive, Vilhena (RO).
“Ela percebeu que eu tinha palpitações na língua e que ela fazia movimentos involuntários. Então ela disse que, possivelmente, tinha alguma coisa no cérebro. Uma ressonância magnética comprovou que eu tinha uma alteração. Minha mãe ficou bem preocupada, porque disseram que tinha que resolver com urgência”, relata o jovem.
O jovem foi encaminhado ao Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba, para uma consulta com o neurocirurgião Carlos Alberto Mattozo. Mas a situação ainda era uma novidade para o adolescente.
“Quando ela me contou [da urgência] fiquei confuso, porque eu não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Foi tudo muito rápido”, recorda.
Luiz e a mãe foram de Rondônia a Curitiba, em uma viagem de dois dias, e tiveram uma conversa pessoalmente com o especialista, que finalmente compreendeu a seriedade do quadro.
“Só fui entender a gravidade quando o doutor Mattozo explicou os riscos da cirurgia”, lembra.
O tumor do adolescente era um xantoastrocitoma pleomórfico, considerado com baixo grau de malignidade (grau 2), mas que pode evoluir para um tumor maligno. É mais incidente em crianças e adultos jovens, além de ser considerado raro.
“É um tumor que foi recentemente incluído pela OMS [Organização Mundial de Saúde] como um tipo de tumor no cérebro, porque, até então, os casos que eram descritos eram considerados tão raros que se tratava de relatos de caso [estudos]”, explica Matozzo, que acabou realizando a cirurgia no jovem.
No caso do adolescente, o quadro era ainda mais complicado, já que o tumor estava em uma área incomum.
“Estava em uma localização muito complexa do cérebro chamada tronco do cérebro — fica na parte de trás da cabeça. É basicamente como se fosse um tronco de uma árvore, ele conecta toda parte de cima e a raiz (a parte de baixo). O tronco cerebral é importantíssimo, porque ali estão estruturas que controlam até os movimentos da respiração, o batimento do coração, a pressão arterial”, relata Mattozo.
O tamanho do tumor, que estava equivalente ao de uma laranja, também foi algo surpreendente. Segundo o especialista, geralmente, eles não são tão grandes. No caso de Luiz, possivelmente, ele tinha o tumor desde criança, mas só foi encontrado agora, de forma tardia.
A cirurgia, apesar de complexa e demorada, foi bem-sucedida. No entanto, o tumor não foi retirado por completo, em razão da área extremamente delicada.
“Não foi possível retirar o tumor completamente, nós tivemos que deixar uma parte dele meio grudada no cérebro, para que ele não saísse com problemas neurológicos”, conta o neurocirurgião.
Luiz e a mãe durante o Natal, no hospital
Toda essa situação fez com que o adolescente passasse mais tempo do que o esperado no hospital. Ele precisou ser entubado, passou por uma traqueostomia (quando médicos fazem um orifício no pescoço para colocar o tubo de ar) e utilizou sonda — para se alimentar sem correr o risco de sofrer uma infecção ou algo do tipo.
O padrasto e o irmão do adolescente também acabaram indo para Curitiba por causa da cirurgia. Eles passaram cinco meses na capital paranaense — a internação foi feita no dia 9 de outubro e a alta aconteceu no dia 5 de março.
“Dia 7 de outubro, três dias antes [da internação], foi o aniversário da minha mãe. Os aniversários do meu padrasto e do meu irmão também foram em outubro. Então, eu passei os aniversários [do padrasto e do irmão], Ano-Novo, Natal e o meu aniversário no hospital”, relembra.
“Foi bem difícil, mas foi preciso”, conta Luiz.
Registro da celebração de aniversário durante a internação
O hospital fez de tudo para que ele se sentisse bem, especialmente durante o seu aniversário, em janeiro. “
Fiquei muito feliz porque lembraram de mim e fizeram uma homenagem”, conta.
Luiz terá de permanecer em acompanhamento com especialistas pelo resto da vida para observar se o tumor não voltará a crescer ou se apresentará forma mais agressiva. Mas, por ora, ele vai avaliar com um oncologista a necessidade de realizar radioterapia preventiva.
Tudo isso, no entanto, não desanima o adolescente.
“Eu tenho fé em Deus que eu vou voltar a comer de tudo depois da radioterapia e, com fisioterapia em casa, vou voltar a andar normalmente. Também vou voltar ao trabalho e continuar estudando”, diz.
O ocorrido possibilitou que ele passasse a enxergar a vida de uma maneira mais positiva, e incentiva que todos façam o mesmo: “Procurem passar mais tempo em família e reclamar menos das coisas que acontecem, porque existem pessoas nos hospitais com problemas muito maiores.”
O caso de Luiz ainda acende um alerta para que os pais fiquem atentos a pequenos sinais que podem indicar uma hipertensão intracraniana (aumento da pressão em razão do crescimento do tumor) em crianças, como: dor de cabeça que piora progressivamente, vômitos, confusão mental e desequilíbrio. O acompanhamento regular com pediatra é fundamental.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Fernando Mellis
Devido à falta de oxigênio durante o parto, a influenciadora digital e estudante Isabella Savaget, de 21 anos, teve parte do cérebro lesionada e, por causa disso, seus movimentos ficaram limitados.
Na época, sua mãe teve uma gravidez considerada tardia pelos especialistas, aos 40 anos. Ela desejava fazer uma cesárea, mas o médico recomendou um parto normal.
“Não saí na hora certa. Foram só alguns segundos que fiquei sem oxigênio, mas foram suficientes para lesionar a parte motora do cérebro”, diz Isabella, com lembranças contadas por sua mãe.
A bebê foi encaminhada para UTI neonatal, onde teve uma convulsão e os médicos identificaram um problema, mas não deram um diagnóstico preciso.
“Na hora eles disseram que eu tive uma lesão e ponto”, relata.
Após consultas médicas, descobriram que a intercorrência no parto gerou uma paralisia cerebral.
Desde então, a jovem tem acompanhamento multidisciplinar com especialistas que auxiliam no seu desenvolvimento.
O lado esquerdo da estudante foi o mais prejudicado, fazendo com que ela tenha, até hoje, dificuldade em certas ações. Mas a parte cognitiva não foi afetada.
A influencer, que fala de inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) nas redes sociais, conta que é possível realizar algumas atividades sem a ajuda de terceiros.
“Eu comecei a fazer tratamento muito nova e isso foi fundamental para desenvolver minha autonomia. Eu não consigo pegar uma xícara, por exemplo. Mas faço tudo praticamente sozinha. [A paralisia] não afetou a parte cognitiva, só a parte motora”, conta.
Ela também apresenta dificuldade na fala e sofre com tetraplegia espástica, que faz com que a pessoa tenha dificuldade em mexer os membros superiores e inferiores, além de espasmos, que são movimentos involuntários.
Desenvolvimento escolar e ao longo da vida
Mesmo estudando em uma escola com apenas cinco alunos com deficiência, Isabella conta que nunca se intimidou ou se sentiu excluída pelos colegas. Ela permaneceu no mesmo colégio por dez anos e sempre fez questão de dançar nos eventos de festa junina.
Inclusive foi por meio da dança que ela conseguiu melhorar sua coordenação e movimentos.
“Eu aprendi a dançar funk antes de andar sozinha. Isso me motivou. A dança foi um tipo de terapia dentro da fisioterapia. Foi através da dança que vi que nada era impossível”, diz.
Ela se recorda que começou a andar aos quatro anos, mas já improvisava passos de dança aos dois anos — tudo de maneira adaptada por sua fisioterapeuta.
Em relação à alfabetização, o processo foi todo feito por meio de um computador. Por não ter coordenação suficiente para escrever, ela contava com a ajuda da tecnologia para exercícios e tarefas escolares.
As matérias na área de exatas foram as mais difíceis. Segundo a jovem, montar equações e outras fórmulas não eram tão simples.
“Precisei de uma tutora que me acompanhasse dentro da sala de aula. Eu falava e ela escrevia em um caderno as fórmulas. Sofri muito com física, química e matemática.”
Crédito,Arquivo pessoal
Legenda da foto,Isabella começou a andar aos quatro anos, mas já improvisava passos de dança aos dois anos
Capaz de entender os ensinamentos da escola, ela conseguiu acompanhar toda a turma e matérias no colégio. Mas a maior diferença entre Isabella e os colegas era o fato de que nem sempre era possível fazer as mesmas atividades.
“Eu percebi que tinha deficiência quando via minhas amigas indo para a aula de balé, de dança e eu ia para fisioterapia”, lembra. Ela também fazia acompanhamento com neurologistas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos.
Anorexia foi forma de esconder deficiência
Dos 14 aos 17 anos, a jovem sofreu com anorexia nervosa e chegou a pesar 30 quilos. Como tinha dificuldade em aceitar a deficiência, ela conta que a doença foi uma forma de esconder o que sofria.
“Meu subconsciente achou que [a anorexia] era uma ótima forma de fazer isso e foi um dos períodos mais caóticos da minha vida. Eu perdi toda aquela determinação para seguir em frente”, diz. Por causa do baixo peso, precisou interromper o tratamento que fazia.
Sua vida social também foi afetada. Ela deixou de ir a festas de aniversário porque era obrigada a comer. Acompanhada por especialistas de diversas áreas, a influencer lembra que os profissionais de saúde chegaram a dizer que ela morreria e que precisaria ser internada.
“Naquele momento percebi que não era aquela vida que eu queria para mim”, conta.
Ela passou a receber comida forçada e chegou a ganhar um pouco mais de peso, mas seguia lutando contra o problema. Seus pais colocaram como “meta” o ganho de peso e, em troca, ela ganharia um cachorro, um dos seus maiores desejos.
Depois de muito tempo em tratamento, ela conseguiu controlar a anorexia. Mas a jovem conta que ainda sofre com resquícios da doença e precisa monitorar seu comportamento para evitar situações que a deixem mais vulnerável.
“Eu digo que até hoje sofro, mas não se compara ao que eu tinha na adolescência”, diz.
Sucesso nas redes sociais e inspiração
Crédito,Arquivo pessoal
Legenda da foto,Em sua rede social, ela desmistifica o dia a dia de PCDs e esclarece dúvidas sobre a deficiência
Por causa de sua cachorra, ela já administrava uma conta no Instagram e tentava buscar parcerias com empresas de produtos para a pet. Um dia ela resolveu mudar o conteúdo do perfil e postar um vídeo contando sobre sua história de superação.
Em algumas horas, a postagem viralizou e o perfil nas redes sociais começou a crescer.
Assim, ela passou a produzir conteúdos sobre capacitismo, o dia a dia de pessoas com deficiência e outros assuntos. Atualmente, ela já soma pouco mais de 200 mil seguidores somente no Instagram.
O sucesso também ocorreu no Tik Tok. Isolada em casa, no auge da pandemia, ela publicou um vídeo em que aparece dançando e a postagem atingiu 22 milhões de visualizações. Nessa rede social, Isabella já tem quase um milhão de seguidores.
Como sua paixão desde pequena foi dançar, ela conta que não imaginava que o vídeo fosse fazer tanto sucesso, mas muitas pessoas a apoiaram e agradeceram pelo conteúdo. Desde então, ela segue com publicações que desmistificam o cotidiano de PCDs e que ajudam na inclusão.
Crédito,Arquivo pessoal
Legenda da foto,Isabella sonha em criar uma loja de produtos adaptados para pessoas com deficiência
“Tem gente mandando coisas positivas, vivendo coisas boas e eu penso que não vou parar meu trabalho. Recebo muita gente dizendo que mudei a vida delas e que dei esperança. Recebo perguntas de mães querendo saber qual órtese [apoio para alinhamento de membro do corpo] eu uso porque o filho delas não conseguem andar”, conta.
Um dos quadros que mais fazem sucesso em sua rede social é o “Bella Descomplica”, no qual ela esclarece dúvidas sobre a deficiência. Pautas como namoro com PCDs, filhos com deficiência, lei brasileira de inclusão e outros temas são abordados por ela.
Falta inclusão e visibilidade
Mesmo sendo bem aceita nas redes sociais, a jovem afirma que a realidade fora da internet é outra. Segundo ela, falta que a sociedade reconheça que pessoas com deficiência são capazes.
Uma outra questão apontada pela estudante é a necessidade de que marcas também enxerguem esse público como consumidor.
“Eu preciso de um sapato adaptado. Eu consegui um sapato porque eu fui atrás de uma marca e mandei fazer”, diz.
A tecnologia também é um ponto que, ao mesmo tempo que evolui para um determinado público, não progride da mesma maneira para quem tem deficiência.
“Quanto mais a tecnologia avança para vocês, nós somos deixados de lado. O microfone no telefone não entende minha voz, por exemplo”, diz.
A mobilidade também é um ponto que ainda precisa ser melhorado em muitas cidades, segundo Isabella.
“Aqui no Rio de Janeiro andar nas calçadas é um pouco complicado. Falta acessibilidade”, destaca.
Isabella conta que seu maior sonho é criar uma loja de produtos adaptados.
“Eu penso em criar maquiagens, sapatos e até móveis para nós.”
Sofrimento no parto aumenta risco de paralisia cerebral
Algumas intercorrências durante o parto podem fazer com que a oferta de oxigênio para o feto — por meio da placenta e da circulação sanguínea — sejam prejudicadas.
A falta de oxigenação e irrigação de sangue para o cérebro leva a hipóxia e isquemia cerebral, respectivamente. As lesões produzirão sequelas neurológicas, como a paralisia cerebral.
E assim como ocorreu com a mãe de Isabella, uma das complicações mais comuns e que geram o problema são partos normais e de longa duração. Mas até em cesáreas pode haver danos.
“Tanto partos normais quanto cesarianas que ocorrem tardiamente podem provocar sofrimento fetal. Por exemplo, o bebê pode fazer cocô dentro da barriga da mãe e esse conteúdo, chamado de mecônio, vai circular pelo líquido amniótico e assim entrará no pulmão do bebê”, explica Márcio Moacyr de Vasconcelos, neuropediatra e secretário do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
“Quando o mecônio entra em contato com o pulmão gera uma inflamação, e a consequência é a falta de oxigênio no cérebro.”
Crédito,Arquivo pessoal
Legenda da foto,No caso de Isabella, a parte cognitiva não foi afetada
“A gestante, durante o parto, pode ter uma pressão muito baixa e uma série de problemas variáveis podem causar a falta de oxigenação cerebral. O cérebro precisa de uma circulação efetiva”, destaca Carlos Alberto Mattozo, neurocirurgião do Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba (PR).
Sequelas da paralisia cerebral
No laudo emitido pelos médicos, Isabella recebeu o diagnóstico de paralisia cerebral com hemiplegia dupla, que provoca o comprometimento dos quatro membros. Ela ainda sofre com espasmos.
Uma das consequências principais da condição é o acometimento da parte motora e, em alguns casos, da área cognitiva do cérebro.
“Muitos podem ter um grau de cognição dentro do normal, mas a função motora é bem afetada. Eles têm dificuldade em movimentar os braços e pernas, mas têm cognitivo bom”, diz Mattozo.
A dificuldade nos movimentos vai depender do nível de lesão e também do lado em que o bebê teve a falta de oxigenação.
“Se tiver uma lesão numa região do lado direito, pode ter um acometimento do lado esquerdo”, diz Ana Paula Peña, neurologista e mestre em Gestão de Saúde Coletiva pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês. Em cada área há regiões correspondentes, o que pode determinar se a lesão será leve ou não.
A especialista destaca ainda que as sequelas podem afetar a visão, fala e provocar deficiência intelectual.
É muito comum que esses pacientes sofram espasticidade, que é a resposta do nosso sistema nervoso a algum tipo de lesão.
Eles também podem apresentar distonia, que são movimentos involuntários. Essa classe de doenças está ligada a distúrbios do movimento, que ocorrem quando a parte mais profunda do cérebro é atingida.
“Se a pessoa perde esse grau de controle e os núcleos da base ficam fora de sincronia, eles geram movimentos involuntários”, destaca Mattozo.
Em relação à fala, pacientes podem apresentar dificuldade na dicção ou articulação de palavras. Isso ocorre porque as regiões frontal e temporal esquerda são afetadas.
Como funciona o tratamento?
Quem sofre com paralisia cerebral precisa ter um acompanhamento multidisciplinar ao longo da vida, com neurologistas, neuropediatra, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.
“É uma equipe multidisciplinar para tentar melhorar as habilidades da criança. Por definição, haverá um atraso no desenvolvimento”, diz Vasconcelos, da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Em muitos casos, a espasticidade pode ser resolvida com fisioterapia, já que a prática ajuda para que o corpo não atrofie. Em alguns pacientes, é preciso o auxílio de órtese ou próteses, muletas e cadeira de rodas.
“O tratamento é vitalício. No SUS obter a reabilitação prolongada é um desafio. É penoso para os pais”, ressalta o neuropediatra.
Para melhorar os espasmos, o paciente pode ainda recorrer a injeções de botox, que são aplicadas nas articulações. Há também medicações que ajudam nos sintomas.
Por último, em casos mais raros e que não há progresso com outros tratamentos, os médicos podem indicar neurocirurgias.
Jovem relata adrenalina antes de realizar procedimento e poucas lembranças da cirurgia; técnica cirúrgica com paciente acordado ajuda a preservar área cognitiva.
“Sempre fui fã de Grey’s Anatomy, mas nunca imaginei passar por uma cirurgia acordada. Foi muita adrenalina”. Com bom humor, Camila Rodrigues, 25 anos, relata sua experiência para retirada de um tumor no cérebro, comparando o seu caso com a série norte-americana. O procedimento realizado no Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba (PR), foi o segundo ao qual foi submetida a auxiliar administrativa que diz lembrar apenas de “alguns flashes” do que se passava no centro cirúrgico.
Camila descobriu o tumor no cérebro após uma convulsão, em 2017. Assustada, procurou vários especialistas até descobrir que o tratamento indicado era cirúrgico. “Quando fiquei sabendo que medicação não ajudava no meu caso, foi bem difícil. Passei então pelo procedimento tradicional, e precisei de quatro meses para voltar a falar normalmente. Este ano, durante consulta de acompanhamento, descobri que precisaria de nova cirurgia e foi assustador. Não queria aceitar, mas resolvi encará-la com otimismo para que o tumor não piorasse ainda mais”, conta.
O neurocirurgião Carlos Alberto Mattozo foi o cirurgião responsável pelos dois procedimentos da Camila. Ele explica que o complicador do tumor em casos como o da jovem é a posição, no lobo temporal esquerdo – responsável pela linguagem – por isso, a cirurgia acordada é a melhor opção.
Procedimento
Nesses casos, o paciente é sedado e dorme na primeira parte da cirurgia, enquanto é realizada a incisão e a abertura do osso do crânio. Após essa etapa, a medicação é diminuída e ele é despertado. “Estar acordado em casos assim é importante para preservarmos a parte cognitiva. São mostradas para o paciente algumas imagens usando um tablet, e feitas algumas perguntas relacionadas aos nomes dos objetos, ao mesmo tempo que fazemos estimulações elétricas para ver se existem implicações que possam causar algum tipo de sequela na função da linguagem”, explica o médico. “Quando a Camila realizou a cirurgia pela primeira vez, a gente ainda não tinha a tecnologia que dispomos hoje, que é fazer o procedimento com o paciente acordado. Já usei algumas vezes essa técnica e, embora possa parecer traumática, pacientes relatam que a experiência é tranquila”, complementa.
A cirurgia para retirada do tumor da auxiliar administrativa durou cerca de 6 horas e, em menos de uma semana, ela já estava se recuperando em casa. A jovem conta que lembra apenas de algumas imagens mostradas no centro cirúrgico. “Na primeira cirurgia, tive problemas com a fala e dessa vez foi bem mais tranquilo. Agora vou fazer radioterapia e quimioterapia para que esse tumor não volte mais”, conta. “Assim que passar essa fase, quero voltar a trabalhar e ter uma vida normal, como a de todo mundo.”
Procedimentos de alta complexidade são realizados em uma instituição que atende 100% SUS
São 51 anos de idade e 23 anos de trabalho no Hospital Universitário Cajuru (HUC). Durante esse período de atuação, o neurocirurgião Carlos Alberto Mattozo atingiu um índice expressivo. Neste mês de agosto, completou 3 mil cirurgias. Em busca de procedimentos menos invasivos, o especialista destaca a importância de chegar a esse marco trabalhando em um hospital que atende 100% SUS e que oferece os mesmos métodos que muitas instituições particulares.
Formado em medicina pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1996, o profissional destaca o fato de ter concluído seus estudos em instituições públicas. “Estudei em escola pública, fiz ensino técnico em Eletrônica no antigo CEFET e também me formei em medicina na UFPR. Sempre me orgulhei de ter estudado em instituições públicas”, afirma.
Além de atender pelo HUC, Mattozo também exerce sua função como neurocirurgião nos hospitais Marcelino Champagnat e Pequeno Príncipe. Também é professor de medicina na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Técnica menos invasiva
Em seu trabalho no HUC, o médico tenta buscar métodos e tratamentos que sejam menos invasivos e que não tragam tanto desconforto para o paciente. Isso tudo apesar da alta complexidade de muitos casos tratados pelo especialista e sua equipe.
Isso significa que em seus métodos ele busca envolvem menores cortes e incisões, ou até mesmo a ausência de cortes, graças ao uso de tecnologias adequadas para as operações. Ele cita como exemplo o procedimento na glândula hipófise, que fica na base do cérebro. “Em caso de tumor na região, temos acesso por vídeo e por meio da narina, e é possível tirar o tumor sem nenhuma incisão”, explica.
Além disso, ele diz que chegar a uma cirurgia é uma decisão que precisa ser muito bem avaliada. “A decisão de fazer ou não a cirurgia tem que ser tomada pensando na pessoa. Sempre é importante analisar se é possível evitar a cirurgia”, diz.
Avanços
Em seu trabalho, Mattozo tem buscado avanços que beneficiam tanto o procedimento cirúrgico quanto a recuperação de pacientes. Ele cita como exemplo o fato de ter realizado, em 2019, a operação de retirada de um tumor cerebral de uma paciente que não precisou ficar na UTI. “Após 24 horas da cirurgia, ela já teve alta. Não era um tumor complexo, na UTI, apesar de o paciente ter um cuidado excelente, mantê-lo nessa situação causa um certo trauma”, diz.
Outra situação relatada pelo especialista foi a oportunidade de fazer pelo SUS no Hospital Universitário Cajuru a primeira operação de retirada de tumor cerebral com paciente acordado.
Ter essas tecnologias e métodos disponíveis em um hospital que atende 100% SUS como o Cajuru é algo bastante positivo, segundo o especialista. “Isso é uma alegria muito grande. A gente acaba operando uma pessoa com os mesmos procedimentos usados em hospitais particulares e em outros países. Conseguimos oferecer o melhor tratamento em neurocirurgia para os pacientes do SUS”, destaca.
Curiosidades
Com 3 mil cirurgias em seu histórico profissional, Mattozo comenta que, em média, faz 25 procedimentos por mês, mas esse número depende da época do ano. Nos meses de final e começo de ano, por exemplo, os números de cirurgias diminuem e acontecem, na maioria, cirurgias de emergência.
O tempo em que o especialista se dedica ao trabalho no centro cirúrgico também varia. De algumas horas, ou até um dia inteiro. Uma dessas situações chamou a atenção quando ele e sua equipe ficaram 25 horas em um procedimento para retirada de um tumor. “Começamos em um dia de manhã e terminamos no outro dia de manhã. O paciente estava com um tumor, que era benigno, mas em uma área difícil para fazer o procedimento. Mas tudo ocorreu bem e atualmente ele está trabalhando normalmente”, conta.
Veja a notícia completa: https://www.saudebusiness.com/artigos/priorizando-tcnicas-menos-invasivas-mdico-neurocirurgio-do-hospital-universitrio-cajuru/
PorPortal Saúde Business-25 de agosto, 2020